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eu mais não

| March 19th, 2010

 

Soube-se que seu silêncio

Virou ruído na escuridão

Que teus talentos

Viraram pó na imensidão

E que seu destino

Descontrolado o levou ao chão

 

Entre quedas e olhos fechados

Vidas e retratos mal acabados

Entre amigos e cortes sangrados

Sozinho na imperfeição perfeita

Não cabe nada a não ser partir

Se repartir em muitos e soltos

Espalhar-se como areia ao vento

Ignorando a exatidão ou qualquer controle

Escapar dos limites

E impor novas regras

A tudo o que for ou se tornar, irreconhecível

isso é tudo o que eu entendo

| March 16th, 2010

 

Repete e repete e repete, enquanto cresce, surge um novo, mais um pouco e as pernas mexem. O corpo balança pra lá e pra cá enquanto a mente se desliga e as cordas vibram entres os dedos, vísceras e coração. Explode absurda entre as paredes a dor que salta os olhos, sinta. Se perdem todos os tempos, todas as formas e todos os olhares, nasce do vazio o som do inexplicável, o intraduzível desejo de expressão e intensidade. Explode em ritmo, mesmo que tão caótico soa coeso e morre devagar, quase não querendo ir. Se perde no infinito o efêmero mais belo das coisas únicas. Que nunca mais seja igual, que nunca mais seja. Nasceu, cresceu, viveu e morreu. Mas me fez melhor, nem que por meros minutos.

cego de si

| March 11th, 2010

 

O que queres de mim? O que queres de mim? Meu deslumbramento diante das estrelas e minha voz tremula entre a fumaça de um cigarro imundo em meio ao vácuo que suga tudo o que sinto. Qual é o meu destino? Me explica se essa minha fome é necessária ou se eu apenas fui enganado mesmo. Me diz se é mesmo certo acreditar em desejos tão vazios? Cadê você quando a gente mais precisa? Cadê você quando as luzes se apagam e quando as sombras aceleram em nossa direção? Me desculpe as palavras, mas cadê você?

 

Eu não gosto de pedir muito, já tenho mais do que mereço e todos nós sabemos disso, só queria uma indicação sabe? É que esperar me deixa nervoso e eu não consigo aceitar a idéia de ser só mais um, pode parecer arrogância, e realmente é, mas eu simplesmente não me contento com essa. Eu não vim parar aqui a toa, então vê se me da logo uma missão pra cumprir, pois o meu peito já ta cheio demais e as minhas forças tão poucas pra minha idade. Eu sei, eu reclamo demais. Me desculpa.

 

Eu só queria ser útil sabe? Poder bater no peito e sentir que eu fiz a minha parte, só isso. Meu acerto de contas sempre foi com você assim como foi com todos os que eu verdadeiramente amo. Então me desculpa os erros e as fraquezas, as vezes que eu me deixei levar por coisas erradas e os momentos em que eu te desonrei. Me perdoa por não conseguir ser tão bom quanto eu sei que podia e por eu fraquejar demais. Por eu simplesmente querer que você faça o que eu tenho que fazer. Já lhe devo muito por estar aqui, eu sei. Sou ingrato, egoísta e idiota muitas vezes e também sei que admitir sem mudar torna tudo isso ainda pior. Mas é que ás vezes é duro demais acreditar nas coisas que você me ensinou. Ás vezes é difícil ser integro e bom, e eu sempre pareço escolher os piores lugares pra tentar viver.

 

Sei que não sou digno de nada do que tenho e que faz muito tempo que não lhe ofereço algum retorno ou satisfação. Sei que é minha culpa estar aqui aonde estou e que você nunca me deixou de lado em momento algum, mesmo quando eu me esqueci de você. Queria que você pudesse ter orgulho de mim pelo que eu sou, queria ser digno de sua confiança e que através de mim você pudesse fazer daqui um lugar melhor. Tenho medo de não conseguir cumprir meu objetivo e de até mesmo ser subvertido pelas forças que cercam esse mundo. Me dê forças para que eu possa encontrar meu caminho. Obrigado por tudo. Mande lembranças a elas pela lua.

presente

| March 11th, 2010

 

Eu não merecia.

Eu gosto dos barulhos e das inexatidões

Das desproporções e dos desapegos

Eu vivo é do desprezo que se acumula entre as veias

Da fumaça que sopra ininterrupta das fendas

E da imensa ingratidão que o mundo me oferece

Meu silêncio é minha arma

E minha dor sufoca as plantas de qualquer jardim

Mesmo que os ataques sejam justificados

Mesmo que as contas batam no final

Nenhum sentido eu vou buscar no que me foi aprisionado

Trancado a sete chaves em ritual ou oração

Nenhum sentido escapara desse demônio que me suga

Ou dessa terra que me desbota

O que eu guardo em mim em mim padecerá

Indiferente as aflições de qualquer pandemônio ou pneumonia

Por segurança, por medo, por inaptidão

Sufocado em sangue e em delírios pornô-estáticos

Consumindo um mundo inteiro de vazio e sombras

Como o grito desesperado dos que tentam se desvencilhar da morte

Capaz de quebrar qualquer regra

Capaz de consumir qualquer carne

Pronto pra se desmaterializar no silêncio e no vácuo

Eu não merecia.

pela coragem

| March 10th, 2010

 

Não me cabem seus erros nem sua adoração. Não entendo as entrelinhas sobre a minha incompreensão, é brutal e inestimável. Não me falem de olhos, de vozes ou de serpentes e demônios, o que me conflita é pequeno, é menor e mais profundo que qualquer queda virgem. Não me valem os dinheiros, os tesouros e conquistas, me cansei de não ser mesmo. Não me peça profecias ou garantias a respeito de mim ou de nenhum de nós. Somos o que somos por sabermos ser apenas isso, mas não creio que seria diferente se nos possibilitassem outras formas. Voa quem tem assas, corre quem tem pernas e morrem os que não tem medo.

a rush of blood to the head

| March 3rd, 2010

 

A porta se fechou e então um vento frio soprou da janela tornando ainda maior o vazio daquele momento. Como um bom romântico, tratei rapidamente de me servir uma dose de vodca e acender um cigarro. Sentado no sofá a meia luz do abajur de canto retirei de seu esconderijo meu violão e sem pressa me coloquei a barulhar meu vazio. O oco ecoava cada vez mais alto e de gole em gole, de trago em trago tomava corpo a minha dor.

 

Ela havia partido e a sensação de liberdade era ao mesmo tempo aterrorizante e acolhedora. Foi então que resolvi me escancarar. Violão cancelado por inabilidade. Coloquei no play um Coldplay e mais algumas pedras de gelo pra amaciar a meia-noite e meia. Sem papel e sem caneta tratei logo de acender meu monitor em nome da fome que viria depois pra amaciar meu sono e me colocar entre as estrelas. Esqueci nas entrelinhas a contra mão que seguiria.

 

“Poesia não poética

Seria preciso publicar ao avesso

Seria preciso imprimir em papel de pão

E usar pra entupir ralos e ralas

Profecia anti anestésica”

 

E então a cabeça estala. Ora, cadê ela? A mente se revolta e os cientistas dentro de mim me lembram que não se pode andar ao reverso ao contrario do que indicaria o clipe. E como ninguém disse que seria fácil…

 

Voltemos ao inicio. A porta se fechou, mas antes disso muito mais já havia se fechado. Eu havia me fechado com mais de mil cadeados. E ela, não suportou a minha insurreição. Dia após dia repetidamente e exaustivamente éramos dominados por uma espécie de amargura dominical. Nossos olhos já não brilhavam mais enquanto nossos sonhos se deterioravam atraindo abutres diversos dispostos a se banquetearem em nosso trágico desfecho. Era apenas o tempo e suas questões.

 

Ela queria que eu fosse além de mim. Que eu encontrasse nela a paz que não há no mundo, e que me submetesse a viver em prol de um ideal idealista. Eu comia menos, bebia mais e me sentia menos disposto a buscar sentido artístico em nós dois. A inspiração que antes me movia rumo a ela, agora era apenas uma obra feita sob encomenda.

 

Foi ai que vi o azul no meu céu. Havia tempos que eu buscava alguma paz, que eu tentava manter os eixos e as convenções. Havia tempos em que eu queria explodir-me em mil por culpa dela. E mesmo que eu soubesse as variadas formas com as quais isso poderia ser feito, a única que me satisfazia era a que causasse dor a nós dois.

 

E como eu já disse. Foi ai que vi o azul no meu céu. Ela, a outra. Tinha a vivacidade que ela, a da porta, havia deixado escapar depois que ele, o tempo com suas questões, passou por nós. E com a outra, eu tinha a intensidade fugaz que hotéis baratos e baseados mesclados podiam trazer com vinho vagabundo. Era nobre em toda a nossa sujeira armada por puro prazer.

 

Foi então que meu céu azul virou temporal. Me cansei rápido demais de papos juvenis e sexo casual. Tudo aquilo ficou tão clichê e tão pouco que minha alma pediu mais. Eu já não ia mais pra casa depois do expediente. De bar em bar atrás de um pouco mais de ambição, atrás de um pouco mais de desestrutura, atrás de encrenca.

 

Até que um dia pude ver seu pranto a minha ausência. Foi ai que voltei. Tivemos tempos maravilhosos. Voltamos ao nosso primeiro e mais intenso motivo. Ela voltou a ser a razão da minha vida e eu voltei a ser quem ela esperava que eu fosse. Foi um inverno quente e delicioso. Foi nosso ápice antes do fim.

 

Então, numa quinta-feira ao chegar em casa me deparo com ela de malas prontas. De pé na sala e vestindo um de seus mais lindos e sensuais vestidos ela vem até mim sem deixar que eu diga nada. Começa a me beijar e sem que nenhum de nós dois deixe de dar continuidade a essa atitude eu percebo que aquele é nosso fim.

 

Enquanto ela se veste eu acendo um cigarro. Ela pega as malas e me olha sem dizer nada. Tira a chave da bolsa e deixa em cima da mesa. Abre a porta e vai embora. A porta se fecha lentamente, não que ela quisesse me dar tempo pra reagir, ela simplesmente me dizia adeus. O som da porta se fechando de leve e então, um vento frio sopra pela janela.

de uma noite em claro

| March 2nd, 2010

 

- Você tem sérios problemas

 

- Eu sei. Mas que diferença faria? A única diferença seria que me veriam de uma forma diferente.

 

- Você precisa de ajuda.

 

- Não. Vocês são quem precisam de ajuda. Eu não preciso de nada.

 

- Exatamente. E é esse o problema. Como alguém pode não precisar de nada? Você não tem desejos, aspirações?

 

- Sim. Tenho. Mas o que isso tem a ver com ser um fantoche?

 

- Entenda, ninguém quer que você seja um fantoche. Nós só queremos o melhor pra você.

 

- Obrigado. Mas a questão é que vocês são fantoches querendo que eu siga o caminho que foi traçado pra mim. E eu infelizmente não vou aceitar isso.

 

- De onde vem essa sua compulsão conspiratória?

 

- Você é um psicólogo ou que?

 

- Nada. Sou apenas um amigo interessado no seu caso. Você sempre desconfia das pessoas?

 

- Não. Só começo a desconfiar depois de elas me traírem. E olha que acontece com freqüência.

 

- E de quem você acha que é a culpa disso?

 

- Minha é claro. Eu não dou a mínima pros outros. É por isso que eles sempre querem tirar algo de mim e o fazem logo quando eu começo a me importar.

 

- Você tem sérios problemas.

 

- Não se preocupe. É tudo parte do que eu quero que você pense.

 

- Como assim?

 

- Você irá saber quando chegar á hora. Tenho que ir. Boa noite.

 

- Dê passos largos quando estiver em ruas escuras.

 

- Ou se esconda nas sombras e em seu próprio silêncio.

 

- Realmente. Você não é quem eu pensei que fosse…

tripa

| March 2nd, 2010

 

Eu sinto o ódio que brota nos gestos

Sinto a cor que você esconde no seu peito

A dor que você se nega sentir

E a fome que você não sente mais

 

Eu sinto a sua aflição multiplica por quinhentos

Sinto o som dos seus passos tortos entre as tábuas de madeira

Eu sinto a sua dor de cabeça de toda segunda-feira

 

Sinto cada centímetro do prazer que se espalha pelo seu corpo

Sinto cada misero odor que você exala enquanto se afoga em satisfação

Eu sinto a sua pele, sinto a sua voz, sinto seus medos e sua covardia

 

Eu sinto a sua necessidade de expressão

Sinto a repulsa que te faz querer inexistir

A amargura que se disfarça em sorrisos

E o sangue que você já não tem mais

 

 

resenha para a atmosfera

| March 2nd, 2010

 

Parece que aceitável o fato de que certas coisas são inevitáveis. Assim como eu consigo evoluir e ainda assim ser capaz de continuar a cometer os erros mais simples. Acho que no fundo o quanto eu sei ou posso esta ligado a minha capacidade de reconhecer os erros e, quando julgar necessário, repará-los. Errar me permite aprender mais.

 

Faz algum tempo que eu tenho permitido que a velocidade das coisas passe por mim com brutalidade. Desde que eu esqueci o que era e me perdi mais uma vez entre tentativas vagas de ser, não pude mais buscar em lugar nenhum reflexão maior do que as que cabem no chão. Admiti minha derrota e estranhamente ganhei força quando assumi que não havia mais nada a ser conquistado. Os objetivos desapareceram e a maré me trouxe ondas maiores que talvez possam ser capazes de me levar de volta á beira, ou quem sabe de me afogar de vez.

 

Não sei se estou sendo claro e nem sei se quero deixar algo claro. O que eu quero dizer é que tudo continua exatamente como estava; em direção a um inevitável fim. E ainda que diversos fantasmas retornem dia após dia pra que eu me lembre de quantas vezes já me perdi em vão, a solução é apenas uma questão de tempo. Resta saber se ela será ideal ou se será apenas uma última saída.

| March 1st, 2010

 

Calem-se

Caibam-se apenas no seu próprio vazio

E desocupem os espaços dos outros

Morram-se

Uns aos outros

Unidos nas chamas de seus próprios egos

Unidos na indiferença brutal que os cerca

Mantenham-se

Ignorando a própria ignorância

E arrogantemente lambam uns aos outros

Cães famintos

Afoguem-se em seus próprios gritos

Calem-se