A porta se fechou e então um vento frio soprou da janela tornando ainda maior o vazio daquele momento. Como um bom romântico, tratei rapidamente de me servir uma dose de vodca e acender um cigarro. Sentado no sofá a meia luz do abajur de canto retirei de seu esconderijo meu violão e sem pressa me coloquei a barulhar meu vazio. O oco ecoava cada vez mais alto e de gole em gole, de trago em trago tomava corpo a minha dor.
Ela havia partido e a sensação de liberdade era ao mesmo tempo aterrorizante e acolhedora. Foi então que resolvi me escancarar. Violão cancelado por inabilidade. Coloquei no play um Coldplay e mais algumas pedras de gelo pra amaciar a meia-noite e meia. Sem papel e sem caneta tratei logo de acender meu monitor em nome da fome que viria depois pra amaciar meu sono e me colocar entre as estrelas. Esqueci nas entrelinhas a contra mão que seguiria.
“Poesia não poética
Seria preciso publicar ao avesso
Seria preciso imprimir em papel de pão
E usar pra entupir ralos e ralas
Profecia anti anestésica”
E então a cabeça estala. Ora, cadê ela? A mente se revolta e os cientistas dentro de mim me lembram que não se pode andar ao reverso ao contrario do que indicaria o clipe. E como ninguém disse que seria fácil…
Voltemos ao inicio. A porta se fechou, mas antes disso muito mais já havia se fechado. Eu havia me fechado com mais de mil cadeados. E ela, não suportou a minha insurreição. Dia após dia repetidamente e exaustivamente éramos dominados por uma espécie de amargura dominical. Nossos olhos já não brilhavam mais enquanto nossos sonhos se deterioravam atraindo abutres diversos dispostos a se banquetearem em nosso trágico desfecho. Era apenas o tempo e suas questões.
Ela queria que eu fosse além de mim. Que eu encontrasse nela a paz que não há no mundo, e que me submetesse a viver em prol de um ideal idealista. Eu comia menos, bebia mais e me sentia menos disposto a buscar sentido artístico em nós dois. A inspiração que antes me movia rumo a ela, agora era apenas uma obra feita sob encomenda.
Foi ai que vi o azul no meu céu. Havia tempos que eu buscava alguma paz, que eu tentava manter os eixos e as convenções. Havia tempos em que eu queria explodir-me em mil por culpa dela. E mesmo que eu soubesse as variadas formas com as quais isso poderia ser feito, a única que me satisfazia era a que causasse dor a nós dois.
E como eu já disse. Foi ai que vi o azul no meu céu. Ela, a outra. Tinha a vivacidade que ela, a da porta, havia deixado escapar depois que ele, o tempo com suas questões, passou por nós. E com a outra, eu tinha a intensidade fugaz que hotéis baratos e baseados mesclados podiam trazer com vinho vagabundo. Era nobre em toda a nossa sujeira armada por puro prazer.
Foi então que meu céu azul virou temporal. Me cansei rápido demais de papos juvenis e sexo casual. Tudo aquilo ficou tão clichê e tão pouco que minha alma pediu mais. Eu já não ia mais pra casa depois do expediente. De bar em bar atrás de um pouco mais de ambição, atrás de um pouco mais de desestrutura, atrás de encrenca.
Até que um dia pude ver seu pranto a minha ausência. Foi ai que voltei. Tivemos tempos maravilhosos. Voltamos ao nosso primeiro e mais intenso motivo. Ela voltou a ser a razão da minha vida e eu voltei a ser quem ela esperava que eu fosse. Foi um inverno quente e delicioso. Foi nosso ápice antes do fim.
Então, numa quinta-feira ao chegar em casa me deparo com ela de malas prontas. De pé na sala e vestindo um de seus mais lindos e sensuais vestidos ela vem até mim sem deixar que eu diga nada. Começa a me beijar e sem que nenhum de nós dois deixe de dar continuidade a essa atitude eu percebo que aquele é nosso fim.
Enquanto ela se veste eu acendo um cigarro. Ela pega as malas e me olha sem dizer nada. Tira a chave da bolsa e deixa em cima da mesa. Abre a porta e vai embora. A porta se fecha lentamente, não que ela quisesse me dar tempo pra reagir, ela simplesmente me dizia adeus. O som da porta se fechando de leve e então, um vento frio sopra pela janela.