ao fim

| December 11th, 2009

 

Desde que me entendo por gente fui doutrinado pra ser rígido, pontual e preciso. Me lembro da voz de minha mãe me chamando atenção todas as vezes que a camisa estava fora da calça e confesso, que depois de um certo tempo aquilo deixou de ser um incomodo e eu passei a sentir repulsa pelas outras crianças; tão sujas e desorganizadas, sem um pingo de classe ou responsabilidade.

 

Como não poderia deixar de ser, cresci; e me tornei uma pessoa de valores morais inabaláveis e de uma conduta social invejável. Membro do conselho do bairro por quatorze anos zelei sempre pelo bem estar da sociedade, pelos costumes e valores católicos. Aos trinta e sete anos, casado e pai de dois filhos fui demitido da empresa onde trabalhei por quinze anos. Agora, aqui estou. Bêbado em puteiro no canto da cidade prestes a gastar duzentos reais por uma transa miserável com uma vadia qualquer.

 

Estruturei toda minha existência em coisas que me disseram; trariam paz, felicidade e reconhecimento para minha vida. Cada passo que eu dei, cada mínimo detalhe de tudo o que fiz, foi medido e calculado para que eu nunca, nunca mesmo saísse da linha. Durante toda a minha vida nunca tomei mais do que quatro latas de cerveja, nunca fumei nem usei nenhum tipo de droga. Transei apenas com uma mulher e todas ás vezes na cama e com a luz apagada. Dediquei o máximo que pude a meu emprego e eduquei meus filhos da mesma forma com que fui educado pelos meus pais.

 

Agora me sinto sujo. Podre, como se nenhum banho, sabonete ou produto de limpeza fossem capazes de me limpar. Isso tudo apenas por ter vindo pra esse lugar, isso tudo apenas por ter fumado um cigarro, bebido três cervejas e não sentir nenhuma vontade de parar na próxima. Isso tudo apenas por ignorar tudo e querer me consumir em qualquer coisa que me faça esquecer a dor, a raiva, a indignação e o desespero que estou sentido.

 

- Quanto custa?

 

- Pra você gatão é duzentos reais.

 

- Pode ser com a luz acessa?

No Responses to “ao fim”

  1. salles Says:

    é difícil uma linha que siga sempre reta
    sem interferências.

    eu confesso que me senti um bocado como ele…
    eu pagaria também.

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