Estou na rua, pra ser mais exato estou num ponto de ônibus. Sempre que estou aqui tento imaginar o que passa na cabeça das pessoas que aqui também estão. De uma certa forma dividimos a mesma realidade, a mesma limitação existencial, mas definitivamente nossos mundos são diferentes. Como posso ser igual a eles? Como eles podem ser iguais a mim? Estamos condenados a seguir as mesmas regras, pra mim muitas vezes isso é tudo o que me une a algumas outras pessoas.
Sentado e esperando enquanto minha mente voa, percebo um sujeito um tanto peculiar a caminhar pelo ponto de ônibus. Um cara de uns trinta e poucos anos, de calça jeans, tênis e uma camiseta com uma estampa qualquer, um sujeito aparentemente normal, mas com atitudes bem especificas. Ele parece perturbado, senta e se levanta o tempo todo, esfrega as mãos pelo corpo e cabeça, parece desesperado. Entra apressado no primeiro ônibus que para e vai embora. As pessoas que ficam não param de comentar a seu respeito, eu não digo nada. Não tenho nada a ver com isso, guardo minhas opiniões e hipóteses pra mim mesmo.
Chega o meu ônibus. Espero o “gado” apressado que se espreme entre a porta como se sua vida dependesse de estar dentro daquele ônibus entrar e depois calmamente sou o último a subir. As pessoas costumam me irritar muito e nos últimos tempos mais do que de costume. Pago a passagem, passo a roleta e vou para o fundo do ônibus, o único ponto em que ainda existem assentos vagos, o fundo do ônibus e como uma área de fumantes. Um local onde ninguém tem tanta pressa quanto os que se espremem lá na frente, um local onde ficam aqueles que sabem aproveitar o caminho e a viagem, com e sem trocadilhos. Um lugar para dar um tempo do mundo.
O ônibus segue sua rota como de costume e ao parar no ponto seguinte uma mulher entra e me olha de cima a baixo. Ela é bonita, pra ser bem honesto ela é muito bonita. Loira, um metro e setenta, olhos verdes, um rosto simétrico, um corpo estonteante e mais do que tudo isso, ela tem charme, alguns chamariam de porte ou sensualidade, pra mim é charme, suave e tentador. Ela passa pela roleta e novamente me olha, eu cinicamente não tiro os olhos dela e a encaro, então ela vem em minha direção e senta ao meu lado. Então, ela diz. Eu sou sua prospectora. Eles receberam meu recado. Espero que não tenham tido problemas para decodificar o poema. Não foi difícil, já tínhamos bastante informação sobre você, como você deveria imaginar, e sendo assim foi fácil fazer as conexões. Eu tenho uma missão para você. Missão? Que tipo de missão? Me acompanhe. Eu explicarei.
Então ela se levantou e seguiu em direção a porta da frente do ônibus. Eu fui atrás dela e foi inevitável chamar a atenção de todos. As pessoas olhavam para ela como se ela fosse uma miragem, eu a segui e descemos no ponto seguinte. Descemos em frente a igreja. Sem falar nada ela foi subindo as escadas e entrou, sentou-se num dos últimos bancos e me perguntou.
Você acredita em Deus? Sim. Acredito. Mas qual é o seu Deus? Meu Deus? Como assim? Todas as pessoas se relacionam com Deus de alguma forma, até mesmo aquelas que o negam, aquelas que não acreditam em sua existência. Todos os que vivem aqui de uma forma ou de outra são influenciados por Deus em suas vidas. Alguns passam a vida inteira tentando merecer a atenção Dele ou buscando Nele o que lhes falta, outros preferem ignora-lo e viver suas vidas sem a necessidade de Sua aprovação. Que tipo de relação você tem com Deus? Quem é, e o que pensa seu Deus? Acho que minha relação com Deus é muito pessoal. Acredito que Ele me deu a oportunidade de estar aqui e que de alguma forma eu posso servi-lo. Mas não sou desses que temem a Deus, se eu tiver que temer Deus, vou ter que temer tudo. O que você acha disso? Pergunta ela enquanto aponta para o altar. Uma manifestação de fé. A forma que algumas pessoas escolheram de demonstrar sua gratidão pela vida ou como você disse, de tentar justifica-la. Você parece inseguro em suas respostas. O que você disse não parece ser realmente o que você pensa. Você age como se tudo fosse um teste, como se a vida fosse uma provação, uma avaliação que resultara na determinação de seu caminho após a morte. Sim. Eu acredito que as coisas que eu fizer, ver e viver aqui irão determinar meu destino após minha morte, só não me fecho nas opções céu e inferno, elas me soam exageradas e fantasiosas demais, e exageros e extremos nunca me agradaram. O que é que te agrada? Essa é uma boa pergunta. Acho que o que me agrada, o que me guia e o que eu busco é a consciência. Acredito que a consciência seja a chave para uma existência plena e balanceada. Mas como você pode se julgar consciente se nem sequer sabe o que realmente existe ou não, se nem sequer sabe o que é real e o que é imaginação, como você pode se julgar consciente se não conhecesse os mecanismos da vida em todas as suas esferas e camadas? Eu não sei, eu não me julgo consciente a esse ponto. A única coisa que posso fazer e acreditar e seguir em frente, se não for assim eu não posso fazer mais nada aqui. Então você crê em alguma coisa? Sim. Definitivamente não cegamente ou brutalmente. Eu creio de uma forma irracional e instintiva, creio, pois como eu disse, se eu não crer, não tenho motivos para seguir aqui. É tudo o que posso fazer, e por mais que em muitos momentos que me questione se isso é correto, eu tenho que faze-lo. Interessante a sua forma de enxergar a fé. Então, pra você, uma pessoa que não crê em nada é uma pessoa morta? Todos creem em alguma coisa. Mesmo que creiam que não creem
em nada. Crer que não se crê é crer.
Nesse momento uma senhora entra na igreja com um terço na mão, ela passa por nós e segue até o altar, se ajoelha e começa a rezar. Então a mulher continua a conversa.
Eu gostaria de saber qual sua opinião sobre o nada. O que você pensa a respeito do nada? O nada pode ser qualquer coisa. O nada é uma imensidão de possibilidades. O nada é tudo. Acho que essa é a melhor definição. O nada é a possibilidade de tudo. Você acredita que algum de vocês, pessoas normais, tem a noção plena do que é o nada? Nenhum de nós nunca viu o nada. Na verdade viu sim, mas não se lembra dele. Talvez enquanto somos bebês tenhamos algum tipo de contato com o nada, mas aos poucos ele se torna menor e as influencias dos meios o consomem até que nos tornemos cidadãos sociáveis. Você estaria disposto a conhecer o nada? A ter agora, com todo o seu conhecimento e experiência, uma oportunidade de poder qualquer coisa? Não. O que for que eu tenha que fazer, tem que ser feito a partir das possibilidades que ainda existem pra mim, a partir das brechas de nada que eu ainda não ocupei em minha caixa de prospecção. Muito bem. Você cumpriu sua missão. Entraremos em contato novamente em breve. Aguarde.
Então ela se levanta e vai saindo da igreja, eu pergunto antes que ela passe a porta.
Ei! Mas qual era minha missão? Me mostrar sua teoria sobre a vida, o nada como possibilidade aberta e sua diminuição devido a agregação de valores e conceitos e definir o espaço que todos tem para se desenvolverem. Eu gostei do termo caixa de prospecção. Trabalhe nisso.
Ela sai, eu fico ali, parado contemplando os santos enquanto reflito sobre nossa conversa. Ela me fez estruturar meu pensamento, me fez definir as coisas que estavam claras, mas soltas na minha cabeça. Ela me permitiu externar a minha teoria. Não sei o que ela quis com isso, mas eu bem que gostei.