A última coisa que me lembro agora
| July 26th, 2008Te deixar acordar
Ou te sufocar novamente nessa angustia?
Saio de casa como se estivesse deixando uma ilha. Como se partisse sem volta, sem propósito e sem destino. Encaro mais uma manhã com os olhos cansados, sempre a apenas um passo do último suspiro. Até que você abre a gaiola e se deixa sair.
Tudo isso é tão sem sentido, e você sabe disso. Todas essas malditas coordenadas que devem ser seguidas. Toda a essa manipulação das suas vontades. Tudo isso pra que?
Por um país melhor? Eu to de saco cheio dessa palhaçada!
O céu é sempre tão bonito de manhã. Não sei por que é que as pessoas fogem do sol. Por que elas preferem se sentar na sombra? Elas não fazem fotossíntese?
Eu vi seus olhos aquela noite Maria. Foi a dois dias, mas eu não vou me esquecer tão cedo. Passou por mim como se soubesse o que eu iria me tornar, como se soubesse que eu quase não me importei com a sua condição. Eu sei que essa pode não ter sido a primeira vez que você reparou o que eu queria dizer. Eu já vi você dormir na rua. Eu já vi você. Eu estava cego, mas você sabia que aquilo era realmente eu. Você sabia de uma forma que eu só sei agora. Você sabia Maria. E agora o mundo inteiro sabe.
O pássaro branco me fez ver o quanto nada é mais surpreendente do que não se surpreender. Deixar o mundo saber que você vive, sem que o mundo viva em você. Meu egoísmo é um absurdo, um absurdo absoluto.
“Atitudes extremas se justificam nesses casos.” Foi isso que ele me disse, depois me informou que era de 24. 82 é bastante chão. Me falou sobre Getulio, e terminou o papo com o atraso do ônibus. Eu larguei meus fones pra escutar. Veio me falar sobre drogas, certamente me julgou pela aparência. Não era da velha guarda como eu havia pensando, se mudou pras redondezas já depois de velho. Não sabe o que é que essa terra quer dizer, não sabe quanto do meu suor do meu sangue e das minhas alegrias eu deixei aqui. 22 é tudo o que eu tenho. E deixei tudo aqui, nesse chão.
Eu sei que um dia eu não vou segurar. Sei que um dia isso vai explodir. Só não sei se você é capaz de cumprir todos os meus medos, de quebrar todas essas barreiras, de ser assim, tão extremo. Tenho medo de ver o dono do jogo, e de ele ser mesmo assim tudo o que andam dizendo. Tenho medo de abrir essa gaiola pra você sair.
Quem foi que me deixou aqui? Quem foi que me jogou fora? A última coisa que me lembro agora…