Ele se tornava um dos outros, nem sequer notava. Estava de joelhos, havia caminhado por dias sob agulhas. Buscava o rumo de casa, mas nem sequer lembrava-se de onde havia partido. Volta e meia perguntava se havia alguém além dele nessa mesma busca. Aprendeu a fazer mosaicos com os cacos que sobravam de si, aprendeu a enxergar de olhos fechados, aprendeu a relevar algumas falhas e a nunca perdoar determinados erros. Tudo o que queria era dar-se um sentido. Quando começou a gritar desesperadamente palavras que ninguém mais podia entender, chamaram a policia. Foi levado depois de derrubar três policias. Preso, dito louco, tido lixo. Dopado, amarrado e controlado, já não via mais o seres que ninguém mais via, já não ouvia mais as sirenes e alertas que ninguém mais ouvia. Foi impedido de salvar o mundo, simplesmente por estender seu mundo além de um mundo só.
Passou a odiar tudo o que não era de seu gosto. O mundo era pequeno demais para seus sonhos. A realidade insistia em não condizer com suas capacidades. Alimentando-se de uma angustia insaciável ele se sufocava em suas próprias palavras. Não havia mais sentido algum em tentar exteriorizar aquilo que o consumia, o mundo jamais entenderia as suas aflições, o mundo jamais pararia pra prestar atenção nele, mesmo que ele entregasse sempre seus olhos ao mundo.
Tinha dois lados, tinha dois tempos. Comia as flores que brotavam em seu coração. Fechava-se como um ouriço. Era amável, mas nunca amante. Sincero, discreto e vazio. Se alimentava de pequenas retidões e obcecava-se com extrema facilidade.
Explodiu numa manhã de terça. Ninguém viu, alguns ouviram, mas nunca foram capazes de descrever ou sequer entender que sons eram aqueles. Nada foi encontrado em seu quarto, seu corpo havia desaparecido assim como qualquer lembrança de sua existência.
Levantaram diversas hipóteses para seu desaparecimento, mas ninguém ousou aceitar a verdade. Ele foi pra onde sempre soube que iria.
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Publicado: 27th Novembro 2010 por Ivans em Sem categoriaConsigo vê-lo descendo a rua num fim de tarde, uma tarde fria e ele entre casacos e a sua completa descrença na lei a na ordem. Consigo vê-lo comendo as horas entre as folhas em branco e as verdades contidas em todas as palavras que se negam a serem ditas. Consigo vê-los pela janela enquanto dizem juntos que o silêncio dele é apenas um prenúncio de morte.
Ele se esconde das mentiras que criou. Cabeça seca, palavra fraca. O destino seria apenas um detalhe não fosse o estado em que ele estava quando o alcançou. Como dizer eu não me importo? Como dizer que não faz nenhuma diferença? Como calar a verdade?
Consigo vê-lo sorrindo em toda a loucura que ele esconde por trás de todos os copos vazios que vai deixando pelo caminho. As pernas bambas e a voz que já quase não sai enquanto ele argumenta sozinho ás sete da manhã na volta pra casa. Consigo vê-lo abrindo os braços pro céu enquanto busca entender os motivos pra tamanha angustia, enquanto ainda que não saiba, agradece pela oportunidade de poder quebrar todas as regras. Dá o exemplo, sem que seja necessário deixar claro o quanto aquilo pode ser mais certo do que todas as normas que guiam os cães cegos do trabalho pra casa, e da casa, pro inferno de uma existência inútil.
Consigo vê-lo caindo diante dos dedos erguidos daqueles todos que buscam a satisfação que lhes falta na decadência do outro. Consigo vê-lo entre as lágrimas tentando entender quais foram os motivos pra que a festa se tornasse dor. Consigo vê-lo só, a espera de um motivo pra poder simplesmente esperar um pouco mais. Ele não cabe em nenhuma definição, simplesmente por não aceitar nada do que seja definitivo.
Consigo apenas vê-lo, ainda que só ele seja capaz de me ouvir.
sente-se?
Publicado: 27th Novembro 2010 por Ivans em Sem categoriaSe todos os fins tivessem os mesmos meios
As necessidades, as forças, os sons
Se todas as verdades não fossem tão falsas
Cores, pecados, respostas
Se apenas abríssemos as almas
Cortes, marcas, estragos irreparáveis
Se houvesse uma forma plena de expressar tudo isso
Ás vezes é como se fosse
Não há palavra que expresse
Não definição que seja suficiente
É só barulho
Barulho cheio de todas as coisas
Barulho cheio de uma explosão vazia
É único, efêmero e sincero
Não faz nenhum sentido
Só se faz sentir
vaivem
Publicado: 20th Novembro 2010 por Ivans em Sem categoriaNão saio de mim. Faz tempo que meus olhos se prenderam demais a minha própria cabeça. Eu morri de silêncio a morte mais dolorosa de um ponto final. Fim. Fim bem no meio. Eu não sei o que fazer.
Não crio estórias, não leio livros e nem escrevo canções. Eu não pinto quadros, não danço a música, não tenho disposição. Eu não lavo louças, não dirijo carros, não compro jornal. Eu não minto muito, eu não sofro pouco, eu não sei amar.
desejos de um soldado ferido
Publicado: 20th Novembro 2010 por Ivans em Sem categoriaNão encontro qualquer vestígio de sangue, mas ainda assim eu sei que algo escorre de mim me tirando a vida aos poucos. Os segundos são lentos e as palavras não explicam nada daquilo que eu sinto. As lágrimas fluem sem nenhum pudor, apesar de tudo eu estou sozinho.
O vazio suga pra si tudo de mim. Eu sinto a dor, o frio da lâmina, mas eu não vejo a faca e nem de quem é a mão que me apunhala. Assim eu vou definhando lentamente nessa brincadeira de querer achar Deus. Assim eu vou admitindo que eu já não sei se sou capaz de suportar tanto peso nas costas. Dói o corpo, a mente e a alma. Eu não quero me arrepender de nada.
Em toda a imensidão que persegui, por todos aqueles a quem me dispus, em todas as verdades e nas doses de exagero poético que carregavam as minhas palavras; em tudo o que fui, fiz ou pensei saber, em tudo isso eu era pleno. Talvez fosse mesmo o fato de eu não dar mais importância nenhuma a quase todas as coisas pelas quais as pessoas vivem se preocupando. Talvez fosse o simples fato de eu saber agora o quanto essas palavras saem tão fáceis de dentro de mim e recheadas de erros me demonstram aquilo que em mim eu mais amo, a minha humanidade.
Eu não consigo explicar essa tristeza que me persegue. Eu não sei explicar essa certeza que me guia e nem sei explicar esse medo que me cega ou a fé que requer tamanha justificativa. Eu sequer compreendo o amor. E o que me diz a vida? O que me diz a rua? O que me dizem aqueles que de esquina em esquina cruzam o meu caminho com todas as suas lições? As pessoas não olham pro lado? As pessoas são mesmo assim tão surdas e cegas? São mesmo assim tão cheias de si e de sua superioridade? No que eles são piores do que vocês?!
As pessoas só se escondem. Escondem seus defeitos, suas mentiras, seus pecados. As pessoas simplesmente negam tudo aquilo que ás torna tão insignificantes e ordinárias quanto todas as outras. As pessoas sufocam sua própria natureza. Se negam a enxergar no outro aquilo que também existe nelas. Ás pessoas tem medo das outras pessoas. Das palavras, dos olhares, do julgamento. Como elas sobrevivem assim?
Tudo o que eu gostaria agora era poder conseguir demonstrar a quem se permitir enxergar, era conseguir ver aqueles que se dividem de peito aberto sendo aquilo que tem e assim poder me tornar consciente o suficiente para poder entender, encontrar e espalhar a verdade, a paz e o amor.
tiro no vazio
Publicado: 25th Outubro 2010 por Ivans em Sem categoria
Satisfaça. Disfarça, disfarça que o mundo não consegue entender. Disfarça que essa porra é uma merda e que tem um bando de lixo dançando em volta da gente. Me da uma arma e fecha os olhos. Quando eu terminar eu te aviso. Quando eu acabar eu te busco. Me beija, me ama, me esquece. Me da uma pedra que eu preciso estraçalhar vidraças. Me deixa tomar mais uma dose de insensatez, me acerta na fuça, me sangra, me mói. Me solta no espaço, me perde na espera, me busca, no vazio, me alça ao caos. Me estrangula mais uma vez. Me deixa gritar no pé do seu ouvido ou simplesmente sangrar por entre os dedos deixando escapar de mim qualquer beleza que exista naquilo que é de verdade. Acaba com tudo. Satisfaça. Tem um monte de corvo em cima da minha cabeça. Tem um monte de cacos de vidro enfiados nos meus pés. Relaxa, relaxa que tudo passa. Relaxa que no fim das contas tudo cicatriza. Não me dê nada. Deixe apenas que eu me entregue, deixe, apenas deixe que…
ridículo
Publicado: 25th Outubro 2010 por Ivans em Sem categoria
Isso é uma overdose. Meu peito é como gelo enquanto meus olhos se afundam na terra. Eu beijo a morte com um sorriso no rosto. Enfio a minha cara na lama e perco o ar. As lágrimas escorrem aos poucos, eu não vou mais suportar. Eu não quero mais ter que tentar.
de fato (h)á ficção
Publicado: 25th Outubro 2010 por Ivans em Sem categoriaQuando viu a luz já quase não havia mais ar. Quando se libertou já sufocava. Entrelaçado ao que lhe abriu caminho. Quase não veio.
Quando descobriu a porta provou do fogo, marca eterna, dor que nem se lembra. Assim como palavra dita em outro nome, como escolha tomada pelas mãos da santidade. Dever e direito. Desejo e obrigação. Seria diferente a sua escolha? Não se julga aquilo que não se mede. Não se avalia aquilo que não se mensura. É só incerteza e no fundo é sim paz.
Quando se viu rei se descobriu vivo. A faca que crava vinda das mãos de quem está pra trás. A dor de não poder mais erguer os olhos apenas adiante. Atrás vem gente, atrás vem fome, por trás veio o mal.
Queda. Escolha, reclusão. Direito de se colocar no conforto, desejo de querer não ser só. Escola da igualdade. A primeira lição de uma vida.
Cresce, volta e chega sempre como sempre foi. Pleno, forte, correto. Tem o que poucos tem, quer o que todos querem. Se atira, se afoga e se fere. A faca fria o corta sem piedade. Arde a dor do que era eterno, roubada a ilusão o resultado é plenitude. Consegue acima de tudo gerar a harmonia. Cria a vida á um anjo em forma de amor e ternura eternos. Jamais estaria só de novo.
A ferida ainda dói. As toneladas aos ombros. A sede de uma juventude que se interrompe em prol de uma nova existência. Ele chora, grita, sangra. De pé. De pé. De pé! Repete. Larga a porta, vai atrás de si. Vai buscar aquilo que sabe que tem e se perde ao mundo.
Vaga. Vago demais. Vago demais. Cago demais! Medo, sorte ou simples manutenção. Entende muito, mas não assume nenhum controle. Flutua querendo a guia. Exige a certeza de um destino, o controle de um caminho. A velocidade de um movimento. Abstêm-se. Portas, janelas, cadeados. Olhos para dentro.
Casa fechada. Vida em silêncio, retirada. Paredes, versos, vozes. Olha, aprende, crê. Olha, enxerga, vê. Olho, olho, olho. Se cega.
Ouve, fareja, sente. No fim a boca come. A boca come, a carne treme. Os pelos se arrepiam coma voz ao pé do ouvido. Agora é outro. Agora é justo. Agora é homem. Renasce. E cala o agora.
…
a letra que falha
Publicado: 25th Outubro 2010 por Ivans em Sem categoriaEm mim existe um desejo. Um não mais mistério de um antes sem motivo em ser. Existe em mim um segredo. Uma verdade tão incontida que só se vê no fundo dos olhos. Uma dose de medo com adrenalina, de anseio com sobriedade, uma voz que se cala enquanto o peito grita em chamas. O chão já não suporta, o ar pesa e a falta de um sentindo aguça os demais. Eu estou cego, talvez eu tenha nascido surdo e quem sabe eu não possa mesmo ser capaz de perceber a verdade não importa quão longe ela pareça estar. Em mim existe uma certeza, uma coragem tão forte que quase estraçalha os nervos. Um ruído que salta ao infinito em um sentido único. São só palavras e nenhuma delas me basta, são só palavras e nenhuma delas jamais foi capaz de me definir. Não que seja tanto, nem que tenha quanto ou que possa tudo. É que é apenas e simplesmente muito mais do que isso.